
Em torno do tema da família muito tem sido dito. A razão pela qual se fala tanta, muito mais do que noutros tempos, não é só porque agora se descobriu a importância da família na vida das pessoas e das sociedades, mas porque ela entrou em crise. Antigamente, a família pertencia às coisas naturais que envolviam a vida da pessoa, nem se discutia, como não se discute se é bom ou mau respirar. Claro que esta crise também tem levado a valorizar muita coisa que não era suficientemente tida em conta, como a importância da ternura nas relações conjugais, a complementaridade homem/mulher na educação; a função social da família, para só citar alguns aspectos.
Assim, não é necessário entender a palavra crise exclusivamente em sentido negativo, mas chamamos verdadeira crise porque muita coisa mudou e ainda não se sabe onde vai parar e porque muito do que sempre foi tido como imutável está a ser atacado. O problema, no entanto, não é tanto que esteja a acontecer uma mudança das ideias sobre a sociedade. Em si mudar as ideias isso não é mau, mas o que está a acontecer é a destruição da civilização humana e, por isso, o desaparecimento da pessoa, porque se negam aspectos constitutivos da sua natureza. A crise da família está intimamente ligada, quer como causa, quer como efeito, à crise geral da sociedade, mas o que está em causa é a pessoa.
Para alguém se colocar diante desta crise precisa de saber bem o que está em jogo, e, na medida do possível, avaliar e hierarquizar os vários problemas para, então, procurar soluções. Nem tudo o que se passa tem a mesma importância ou vale o mesmo. A busca do critério por meio do qual se possa avaliar uma mudança na sociedade é, talvez, a mais urgente e necessária das tarefas que nos compromete a todos os que vivemos neste tempo.
Para alguém se colocar diante desta crise precisa de saber bem o que está em jogo, e, na medida do possível, avaliar e hierarquizar os vários problemas para, então, procurar soluções. Nem tudo o que se passa tem a mesma importância ou vale o mesmo. A busca do critério por meio do qual se possa avaliar uma mudança na sociedade é, talvez, a mais urgente e necessária das tarefas que nos compromete a todos os que vivemos neste tempo.
Seria redutor e, em certo sentido, imbecil, considerar que o critério é o passado. Desse modo a avalização seria sempre uma comparação entre o que era e o que é, coisa que não só é difícil de ser feita, já que as realidades humanas, por mais que se pareçam, nunca são iguais, como também é inútil, já que os tempos nunca voltam para trás e as descobertas e alterações que cada tempo comporta tornam impossível um retorno. Não menos imbecil é a pretensão idealista, geralmente progressista, que julga encontrar num ideal a construir no futuro a solução de todos os dramas humanos.
O futuro será, sem dúvida, resultado de quanto hoje for feito, mas não terá nada que ver com os sonhos que cada um tem hoje, já que será o complexo resultado de uma infinidade de factores. Mais ainda, mesmo que fosse verdade que o critério para avaliar uma realidade presente é o ideal que hoje projectamos no futuro, com que legitimidade uma pessoa pode decidir ser este ou aquele ideal. Ficaria por esclarecer qual o critério para avaliar o ideal forjado.
A busca do ideal ou critério, de qualquer realidade humana, mas sobretudo de algo tão entranhadamente humano como é a família, requer, por isso, antes de qualquer pretensão abstracta e idealista, um olhar realista para a pessoa humana. Afinal a família é uma comunidade de pessoas, antes ainda de ser uma célula da sociedade.
A grande divisão sempre acontece entre os que acreditam que a realidade responde ao projecto de um Criador, e nesse caso procura-se conhecer o que Ele pretende para saber se a coisa está ou não bem, e os que, recusando a existência dum Criador, colocam tudo o que existe no reino da ilusão ou como consequência do acaso. Se forem estes a ter razão, não haverá nunca um critério para avaliar, o que quer que seja. Nesse caso, ganha o mais forte e os limites a qualquer mudança nada têm que ver com uma avaliação.
A questão da família é, por isso, uma questão humana, antes ainda de poder ser considerada uma questão social. O que é a pessoa humana? Esta é a questão que deve fundamentar qualquer reflexão sobre a família. A pessoa não se entende como um ser abstracto, é sempre uma pessoa concreta, é esta ou aquela pessoa, é sempre um eu com um nome, uma história, personalidade, tarefas, etc. é sempre alguém que alguém conhece, é sempre real! Mas esta pessoa real e concreta, este eu que cada um de nós é, não é uma coisa simples!
É alguém que pode ser encontrado, visto e tocado, ou seja, é um corpo, mas não se reduz a uma harmoniosa soma de moléculas. Aquele corpo é mais do que a soma das suas partes. Os antigos diziam que a alma dava forma ao corpo e que na unidade da matéria/corpo e da forma/alma se tinha a pessoa. Até hoje ninguém conseguiu com êxito uma maneira mais adequada para explicar sem reduzir a unidade complexa que é a pessoa humana.
Sempre que se tentou negar a explicação hilemórfica, como aconteceu na modernidade desde Descartes, caiu-se no dualismo que não explica a unidade, ou na exaltação duma dimensão e no consequente desprezo da outra: materialismo ou espiritualismo são os dois extremos que se tocam na negação da unidade complexa que é a pessoa.
Boécio dizia que a pessoa é uma substância individual de natureza racional. Ele tinha razão. A pessoa é uma unidade, uma substância individual e é racional porque é capaz de pensar, de ter consciência de si, e é livre até ao ponto de poder sacrificar uma coisa boa imediata para optar por outra melhor mas não imediata.
A pessoa não é uma ilha! Também é a partir do olhar para a realidade que se pode perceber que nenhuma pessoa está isolada. Já desde o processo pelo qual surge - pai e mãe unem-se para conceber um filho -, se vê que a natureza humana implica sempre a existência de relações com outras pessoas. A pessoa humana é sempre pessoa entre pessoas. Mas mesmo isto é pouco, na verdade aquilo que acontece é que as pessoas não estão apenas juntas mas entre elas existe interacção, até àquele misterioso laço que une pessoas a que se chama amor.
Concretamente, porque a pessoa corporal e espiritual é homem ou é mulher, com a mesma humanidade e, por isso, igualmente humanos, mas realmente diferentes, percebe-se que existe uma espécie de inclinação natural entre homem e mulher. A diferença sexual não é para separar ou distinguir, pelo contrário a atracção recíproca e a fecundidade da sua unidade mostram que a humanidade alcança a sua forma plena não no indivíduo isolado mas na unidade fecunda de um homem e de uma mulher. Em síntese, o outro, e sobretudo o outro que é conhecido e que é querido, leva cada eu a descobrir a sua própria identidade.
O enamoramento e depois o compromisso para a vida que brota do amor entre um homem e uma mulher não significa apenas a descoberta do outro mas também a descoberta de si e, mais profundamente a descoberta desse outro nível que é a comunhão, o nós, única forma de uma pessoa se realizar plenamente.
A pessoa humana, ser único e irrepetível, unidade complexa de alma e corpo, ser eminentemente social, vive, ainda, numa história e, por isso, experimenta-se a si mesmo no tempo e no espaço concretos. Todas as relações que temos com outras pessoas e até connosco mesmo são sempre, de forma absolutamente necessária, afectadas pela marca do tempo e da pátria. Mas a pessoa, mesmo contextuada e vivendo num tempo que não pára, permanece a mesma. A pessoa humana procura sempre a unidade, não só entre alma e corpo, entre eu e tu, mas também entre permanência e mudança. Há coisas que nenhum tempo ou lugar podem mudar, sob o risco da pessoa humana deixar de ser o que é, e todos desejamos viver um dinamismo que seja não uma constante e desorientada mudança mas um crescimento do mesmo eu.
É certo que começámos a existir quando outros já cá estavam. Deles herdámos não só a vida como também tudo aquilo que ajuda a viver, desde as coisas materiais até à concepção da vida. Nenhuma pessoa existe sem relações de pertença através das quais recebe e entrega. Todos vivemos dentro duma tradição que liga passado, presente e futuro numa síntese entre tempo e permanência, entre os antepassados e os descendentes.
A família é algo estrutural na vida da pessoa humana, porque é a concretização de tudo isto. É na família que temos origem e nos vamos descobrindo em relação com pessoas que conhecemos e nos são queridas. É na família que temos os encontros estruturantes da vida que nos levam a tomar consciência de sermos pessoas humanas em toda a complexidade e identidade que lhe é própria, descobrindo, igualmente a nossa originalidade e as pertenças que nos definem.
É na família que fazemos a experiência de ser amados em primeiro lugar, e será na constituição de uma nova família que vamos poder realizar plenamente a capacidade de amar e ser amado que aprendemos em casa dos pais. Nela recebemos a herança fundamental da nossa vida que nos ensina o que somos, mas também será através da família que vamos poder transmitir aquilo que vivemos. A família não é uma coisa do passado, tal como não é do futuro exclusivamente, é indissociável da pessoa. Tentar, como acontece nos tempos em que estamos, desprezar a família ou substitui-la por outras realidades sociais é fazer com que a pessoa humana deixe de saber quem é, e em breve deixe de ser humana.
Ao longo da história, houve várias tentativas de imaginar a sociedade sem família, desde a República de Platão que isso tem tido alguns interessados, mas nunca foi possível um punhado de intelectuais desorientados afectar o rumo das pessoas reais, até chegarmos a este tempo em que o poder mediático, o poder económico e os intelectuais relativistas se unem para tentar fazer uma coisa nova e destruir o que era estrutural.
Será exagero dizer isto? Mas, se achamos que deve ser liberalizado os pais matarem os filhos recém gerados (aborto), se as relações deixam de pretender ser estáveis e capazes de progredir através dos momentos bons e dos momentos maus, para serem apenas experiências fugazes (divórcio fácil uniões passageiras) e se a relação de casamento entre pessoas deixa de ser a descoberta do eu total, corpo e alma, e, consequentemente da diferença e da complementaridade sexual, para passar a ser apenas a união de dois seres que sentem uma qualquer afeição (homosexualidade), então o futuro será uma incógnita.
Se os que acreditam que o Criador tem um projecto e experimentam no seguimento desse caminho revelado a verdadeira felicidade se juntarem e defenderem a família, a vida e as instituições que as protegem, então o futuro não será negro, mas uma nova esperança.
